10/04/2006 – A PROPÓSITO DO USO DAS TALAS PARA PREVENÇÃO E TRATAMENTO DAS LER/DORT

A PROPÓSITO DO USO DAS TALAS PARA A PREVENÇÃO E TRATAMENTO DAS LER/DORT

Parece incrível, mas ainda notamos um grande número de profissionais ocupacionais que tem dúvida ou pior, recomendam e/ou prescrevem as chamadas talas para a prevenção correção das LER/DORT em nosso País.

Num debate contra as TALAS tivemos que utilizar um argumento pouco técnico para argumentar: Explicamos: Sendo consultores de um fabricante brasileiro que fabrica sob licença um número grande de suportes de punho, inclusive com TALA imobilizadora, tivemos que utilizar este argumento, uma ocasião, a fim de inibir alguns que argumentavam que estávamos contra este tipo de produto por não o fabricarmos ou distribuirmos. Pois fabricamos sim e muito. Todos os suportes de punho por nós fabricados, além de trazerem um arsenal de informações sobre as LER/DORT, exercícios, dicas, etc., trazem naqueles com TALA um aviso muito importante:

ESTE PRODUTO NÃO DEVE SER USADO DURANTE O TRABALHO! PODE SER USADO SEM A TALA DURANTE O TRABALHO COMO UM SUPORTE MÉDIO E COM A TALA PARA USO EXCLUSIVAMENTE TERAPÊUTICO SOB RIGOROSO CONTROLE PROFISSIONAL.

Vez ou outra recebemos em nossa empresa e consultório, profissionais que querem comprar TALAS para seus funcionários, como recentemente um profissional responsável por um dos maiores supermercados que queria colocar talas em seus caixas de “check out”.

A Associação Brasileira de Ergonomia (ABERGO) no Boletim de Agosto de 1998 traz um artigo de BONFATTI e VIDAL sobre o uso de órteses ( talas ) para a prevenção de LER declarando que:

As órteses, conhecidas também como talas, são disponíveis para serem usadas em clínica (Ortopedia, Fisiatria, Reumatologia, etc, por exemplo) e a sua indicação só pode ser feita após avaliação por profissional capacitado para uso como coadjuvante de tratamento.

Há uma série de cuidados que devem ser tomados, uma vez que é necessário que elas sejam adaptadas ao usuário e um controle clínico estrito para evitar conseqüências não desejadas, como um comprometimento da musculatura e da própria articulação que estão sendo tratadas;

Estes dispositivos não apresentam eficácia comprovada para prevenir estes problemas.

Na verdade, os especialistas em medicina do trabalho e ergonomia assinalam a contra indicação a este uso, uma vez que, além de não proporcionar proteção a quem trabalha podem comprometer o próprio funcionamento orgânico, tornando a pessoa ainda mais exposta aos riscos que pretendem prevenir.

Dentre as conseqüências do uso constante desses equipamentos podemos citar: atrofias musculares, desvios ulnar e radial; redução da amplitude de movimentos; compressão nervosa; alterações circulatórias. Ressalte-se também que uma imobilização adequada deve restringir uma articulação anterior e uma posterior à área afetada ( grifo dos autores ).

No caso específico de digitação, recomendamos a adoção de um kit ergonômico básico formado por :

SUPORTE DINÂMICO DE PUNHO SEM HASTE RÍGIDA;

APOIO PARA POSICIONAMENTO CORRETO DO PUNHO DURANTE O USO DO
MOUSE E TECLADO;

APOIO DINÂMICO PARA OS PÉS;

TELA ANTI – REFLEXIVA;

SUPORTE DE LEITURA PARA AS PASTAS E DOCUMENTOS;

APOIO COM REGULAGEM DE ALTURA PARA O MONITOR OU O USO DE MESAS COM REGULAGEM DE ALTURA PARA TAL FIM ( MESA COM DOIS TAMPOS).

Os modelos “LITE” ou “NEO” fabricados pela CMQV sob know how ou similar, específicos para as funções de digitação, são recomendados, lembrando que esses são modelos que fornecem leves compressões aos tecidos moles, sendo encontrados em tamanho único, pois sendo de neoprene esportivo ( três mm de espessura ) e de baixa densidade, acabam acomodando-se aos diferentes padrões de punho e mão dos usuários.

Assim, e com a devida atenção, os suportes dinâmicos de punho não devem ser confundidos com as talas de imobilização, mormente àqueles a venda em casas de materiais ortopédicos, alguns até com nome que fazem alusão a digitação, sem qualquer alerta para os males que podem provocar. As talas imobilizadoras possuem hastes rígidas (de material sintético ou alumínio) que impossibilitam a movimentação plena e funcional do punho e muitas vezes até dos dedos, causando compressões mecânicas nos nervos, tendões e outros tecidos moles.

Além disso, causam também um prejuízo adicional à circulação sangüínea local, levando ao surgimento de quadros de isquemia que podem progredir para distúrbios mais graves., como Contratura Isquêmica de Volkmann ou até mesmo Necrose Tecidual.

Assim sendo, o uso deste tipo de tala deve ser reservado exclusivamente aos casos em que o funcionário encontre-se em tratamento necessitando de uma imobilização local, havendo o diagnóstico clínico de uma lesão devendo, portanto, estar o mesmo afastado de suas atividades ocupacionais habituais.

Ademais, ao diminuir a quantidade normal de movimentação das extremidades, as talas com hastes rígidas, quando colocadas em trabalhadores que precisam continuar a executar suas tarefas manuais, acabam por produzir movimentos substitutivos e posturas compensatórias inadequadas em outras partes do corpo, como por exemplo, na cintura escapular, ou nas articulações do cotovelo e ombro homolaterais.

Um maneira simples de perceber tais compensações e prejuízos funcionais pode ser testada no próprio local de trabalho. Por exemplo, coloque uma tala com haste rígida em um funcionário que atue digitando e observe as seguintes compensações deletérias: elevação da cintura escapular, projeção anterior da cabeça, abdução dos ombros (“abertura das asas”), excesso de movimentos do cotovelo, “endurecimento” dos músculos dorsais superiores e do pescoço e tronco curvado à frente, tudo isso apenas com a colocação de um suporte rígido na extremidade distal dos membros superiores! Agora, experimente retirar a tala e permitir a movimentação livre do punho e dedos para visualizar o desaparecimento ou a minimização das compensações citadas.

Resumindo, se o assunto é prevenção, suporte dinâmico ergonômico para o punho sim, tala ortopédica com haste rígida não !

Bibliografia

A verdade sobre a prevenção das LER A . Acayaba / O Orselli – Jornal do CONASEMS , Ano III N.º 35 e Site da Bras Golden Ergonomics 
www.brasgolden.com.br Artigos Técnicos.
ABERGO : Bonfatti, R. ; Vidal. M. C. O uso de órteses ( talas ) para prevenção da LER. Associação Brasileira de Ergonomia. Boletim nova fases, volume 1, número 2, Agosto de 1998.
Revista ( Professional Safety ) , Julho 1997 – “Wrist Braces ” Marty DAGOSTINO

* OSNY TELLES ORSELLI

Eng. Mecânico Formado pela Escola Politécnica da USP
Eng. de Segurança do Trabalho Formado pela Escola de Engenharia Mackenzie
Pós-Graduado em Administração de Empresas com Especialização em Produção pela Fundação Getúlio Vargas
Diplomado pela Escola Superior de Guerra ( ADESG ) em Altos Estudos Estratégicos
Colaborador da ABPA – Associação Brasileira de Prevenção de Acidentes.
Membro do Capítulo Internacional do American Association of Safety Engineers
Membro do US National Safety Council
Membro da Human Factors and Ergonomic Society
Colaborador Técnico do Sindicato dos Técnicos de Segurança do Estado de São Paulo SINTESP
Consultor de Empresas
Ex Diretor técnico da Bras Golden Ergonomics – Jacareí -Brasil

* PAULO CESAR PORTO DELIBERATO

Graduado em Fisioterapia pela Faculdade do Clube Náutico Mogiano em 1990;
Pós- Graduado em Traumatologia Esportiva pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIEP), com ênfase em prevenção de lesões no esporte, em 1992
Mestrando em Ciências do Movimento Humano pela Universidade Guarulhos (UnG, em andamento);
Professor da Faculdade do Clube Náutico Mogiano nos Cursos de Fisioterapia e Educação Física, responsável pelas disciplinas : Cinesiologia e Biomecânica do Exercício, Cinesioterapia e Fisioterapia Preventiva desde Junho/1993;
Professor da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) nos Cursos de Fisioterapia e Educação Física, responsável pelas disciplinas : Antropometria, Cinesioterapia e Fisioterapia Aplicada a Reumatologia e Geriatria desde Março/1995;
Professor da Universidade Guarulhos (UnG) no Curso de Fisioterapia, responsável pelas disciplinas Fisioterapia Preventiva, Fisioterapia Aplicada a Reumatologia e Fisioterapia Aplicada a Geriatria desde Fevereiro/1997;
Professor da Universidade São Marcos/São Paulo no Curso de Fisioterapia, responsável pela disciplina Cinesioterapia desde Fevereiro/2000-,
Fisioterapeuta concursado do Sistema único de Saúde (SUS – DIR 1 – Núcleo III Penha), atuando no setor de concessão de próteses e órteses de Agosto/1992 a Setembro 1999.
Sócio Proprietário da Equality – Consultoria, e Assessoria em Fisioterapia do Trabalho e Ergonomia ,desde Dezembro 1998;
Assessor da Área de Análise Ergonômica da SAMSEG – Avaliação Ambiental Ltda, desde Outubro 1998;
Diversas Palestras, Simpósios e Cursos proferidos sobre o assunto (Ericsson, Petrobrás/REVAP, CIA Suzano de Papel e Celulose, Fumas, Hosp. do Servidor Público Estadual, Hosp. Santa Marcelina, ICE Cartões Especiais e outros ).
CREFITO 11448/3 FISIOTERAPÊUTA

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