15/09/2007 – ERGONOMIA E CONDIÇÕES DE TRABALHO

ERGONOMIA E CONDIÇÕES DE TRABALHO
O CASO DE UMA FÁBRICA DE ÓLEOS

Sérgio Luís Camillo de Lelles

EPGP/PEP/COPPE/UFRJ

Apoio financeiro PRH-ANP/MME/MCT

Sandrine Estella Peeters
EPGP/PEP/COPPE/UFRJ

Prof. Dr. Francisco José Castro Moura Duarte
Coordenador EPGP/PEP/COPPE/UFRJ

Abstract:

The present article looks for to analyze of preliminary form as an ergonomic performance can excite improvements in the quality of life in the work. Referring points to the health and conditions of work, quality of life, security and ergonomics are placed. >From an ergonomic intervention in an oil plant, the points above are analyzed under a practical point of view. In sight of this, the article places the necessity of a bigger envolvement enters the actors compromised to the work in question.

Key-words:

Ergonomics, Oil Plant, Quality of life.

Área Temática: Ergonomia, Segurança e Qualidade de Vida no Trabalho

I – INTRODUÇÃO

A questão da saúde do trabalhador no Brasil em geral prescinde de uma visão integradora entre empregado/patrão, capital/trabalho, já que a atuação das empresas se limita às exigências legais que apenas prescrevem situações ambientais e em que está ausente um caráter incentivador para que se obtenha soluções duradouras e inseridas num contexto de melhoria contínua. Em última análise, esta forma de abordar o problema “engessa” e limita a possibilidade de que as empresas busquem melhores soluções para os problemas de saúde laboral enfrentados pelos trabalhadores.

Este quadro piora ainda mais se verificarmos a crescente desintegração da sociedade nacional, verificado pelo aumento das taxas de desemprego e de violência urbana, diminuição dos salários e a carência de atuações das iniciativas públicas ou privadas para atenuar o grave quadro. De forma que para um candidato a cidadão, o fato de se ter emprego significa um privilégio que justifica a aceitação de trocar seus direitos (condições adequadas de trabalho) pela garantia (momentânea) de emprego.

O estudo procura revelar, ainda que de forma incipiente, as cargas de trabalho e suas relações com o estado de alegria ou tristeza, felicidade ou sofrimento do trabalhador e propor reais melhorias das condições de trabalho, procurando desta maneira, diminuir as cargas de trabalho e o desgaste operário, e com eles, os riscos de acidente e as doenças ocupacionais, satisfazendo o trabalhador, atingindo ganhos na produtividade, melhorias no ambiente organizacional, motivação para o trabalho, realização pessoal e saúde física e mental do trabalhador.

Além do ponto de vista do trabalhador, está o do empregador que a cada ano gasta inúmeros recursos como conseqüência da falta de condições adequadas no trabalho que geram acidentes e doenças que traduzem na diminuição da capacidade produtiva do trabalhador e em seu descontentamento que distanciam o trabalhador de um efetivo envolvimento no trabalho.

O artigo analisa as possibilidades de atuação em saúde e condições de trabalho numa fábrica de óleos, tendo com base a análise ergonômica do trabalho.

A situação analisada parte da demanda de uma fábrica de óleos que enfrenta problemas de afastamentos e reclamações referentes a problemas lombares em operadores. Outras empresas do ramo estão sendo analisadas, de forma que se pode complementar as observações à respeito do trabalho neste setor industrial.

São referidos ainda neste estudo, alguns implicantes e implicações na segurança e na qualidade de vida nestes sistemas, que abarcam atividades complexas, contínuas e coletivas, envolvendo grandes riscos potenciais de danos para a saúde dos trabalhadores e para o meio ambiente.

II – A QUESTÃO DA SAÚDE E DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO

Agravado por um circuito mercadológico cada vez mais exigente, o investimento nas melhorias das condições de trabalho está colocado num segundo plano. E, como historicamente as melhorias das condições de trabalho estão ligadas com a luta do movimento sindical, o problema nestas empresas conta com o agravante de que não existe uma organização social forte para a defesa de seus interesses.

Dois estudos são indicativos neste sentido: o estudo de BERLINGER (1983) e o de ODDONE (1986). Ambos são frutos de estudos que tratam do movimento operário italiano na luta por melhores condições de trabalho e podem ser encarados como experiências que tiveram importante influência nos rumos das lutas operárias em torno da defesa da saúde dos trabalhadores.

O primeiro deles relata a experiência na participação ativa do movimento operário italiano em parceria com uma intelectualidade no final da década de sessenta. BERLINGER frisa a necessidade de um movimento ativo politicamente, que demonstre que a luta contra a nocividade do ambiente de trabalho resulta num meio ambiente mais saudável para a sociedade, que convença a sociedade que a luta pelo bem-estar físico, psíquico e social dos operários é a luta por uma sociedade de bem-estar para todos.

O trabalho de ODDONE coloca a necessidade que as descobertas científicas com relação a nocividade dos ambientes de trabalho sejam socializadas; é necessário que a classe operária se aproprie delas e se posicione como protagonista na luta contra a nocividade no trabalho. Destacam- se portanto, a necessidade de socialização das descobertas científicas, a necessidade de que o sistema de controle ambiental seja eficiente, e o papel hegemônico da classe operária como sendo elementos fundamentais na luta e conquista por melhores condições de trabalho.

LAURELL(1989) propõe, a partir do estudo analítico da relação saúde-trabalho na sociedade capitalista, a necessidade de se usar o conceito de “cargas de trabalho”, em vez do conceito de “risco”, e o de “desgaste” em vez de “doença”. Essa mudança de enfoque é justificada pela noção de que os acidentes de trabalho e as doenças ocupacionais serem fenômenos de origem monocausal está ultrapassada e que a ocorrência deles é bem mais aceita se utilizarmos um modelo multicausal de elementos que se interatuam dinamicamente entre si e com o corpo do trabalhador, de forma que não é apenas uma condição de trabalho que produz o risco, mas um conjunto de condições técnicas, organizacionais e ambientais em interação.

Através do estudo dos autores acima, podemos classificar três componentes da carga de trabalho que se interatuam: a carga física, a carga mental/cognitiva e a carga psíquica.

À carga física está relacionado os diferentes componentes de trabalho que atuam diretamente com o corpo do trabalhador. Assim, podemos destacar os agentes posturais, os esforços e os agentes químicos como exemplo desta carga física.

Quanto à carga mental cognitiva, relacionam os componentes que através do corpo do trabalhador tomam significado. Como são os casos das tomadas de decisões, da utilização da memória e do aprendizado.

 

Quanto à carga psíquica podemos destacar o modelo da psicopatologia do trabalho que procura estabelecer nexos causais da carga psíquica no trabalho e seus determinantes. Este modelo constitui uma abordagem específica da relação do homem com a realidade. Aqui, a vivência subjetiva é importantemente considerada, seus valores qualitativos. Segundo DEJOURS (1987), o sofrimento mental resulta da organização do trabalho.

DEJOURS (1999) coloca a importância do reconhecimento das dificuldades superadas pelo trabalhador como fator que transforma o sofrimento em realização pessoal e ajuda a reconstruir a identidade do trabalhador, tão abalada nestes tempos de crises gerais.

III – A QUESTÃO DA QUALIDADE DE VIDA

Partindo do modelo da psicopatologia do trabalho, DEJOURS (1987) reconhece a “positividade” de intervenções ergonômicas nos locais de trabalho, mas que “o mais freqüente é que o sentimento de melhoria e de alívio desfaz-se bastante rapidamente”. De forma que parece ser necessário, ao se atuar na melhoria das condições de trabalho, considerar uma vivência subjetiva a longo prazo, para lidar com o problema dos prejuízos hierarquizados e, desta forma, não limitar a ação ergonômica no nível mais elevado de prejuízos no trabalho e sim trazer satisfação suplementar ao conteúdo significativo do trabalho, como observa DEJOURS (1987).

Com relação ao que Dejours define como “hierarquia sintomática” (ao se desaparecer os prejuízos mais altos desta hierarquia logo os que estão num nível inferior vêm a tona) gostaríamos relacioná-la a escala hierárquica das necessidades motivacionais de Maslow e Herzberg.

Com relação aos estudos de MASLOW (1954) e MCGREGOR (1973) Interessante observar que no patamar mais elevado das necessidades das teorias das motivações de MASLOW e MCGREGOR está as necessidades de auto-realização e auto-desenvolvimento. MCGREGOR coloca que devido as condições da vida moderna dá-se a estas necessidades uma limitada possibilidade de adquirirem expressão.

BERGAMINI (1998) conclui que a motivação nasce no interior de cada um. Para manter pessoas motivadas, deve-se conhecer suas necessidades e oferecer fatores de satisfação de tais necessidades.

 

Assim, uma intervenção nas condições de trabalho deveria ser vista com o fim de valorização do homem, salientando-se os pontos positivos no trabalho e colocando os pontos negativos como “atrapalhadores” do desenvolvimento do que era positivo.

IV – A QUESTÃO DA SEGURANÇA

A pouca ênfase dada aos processos e métodos de trabalho, isto é, à organização da produção como um todo, culminou na dissociação das ações de Segurança e Saúde no Trabalho das ações de produção, caracterizando-as como ações secundárias, conduzidas por pessoas sem poder de decisão e, pior, tratadas como conflitos trabalhistas. Observa-se que as condições de trabalho seriam reflexo do grau de organização social dos trabalhadores em cada sociedade DWYER(1994).

Segundo DWYER os acidentes são produzidos por relações sociais do trabalho. O autor coloca que “a relação social do trabalho é a maneira pelo qual é gerenciado o relacionamento entre uma pessoa e seu trabalho”. De forma que, continua DWYER, “as relações do trabalho podem ser teorizadas como existindo em três níveis dentro de uma organização: rendimento, comando e organização”.

Podemos relacionar vários trabalhos na literatura especializada que criticam a atuação da legislação que direciona suas ações na figura do trabalhador e principalmente nos riscos de trabalho, sendo então, incorporada uma visão culposa dos acidentes – por meio da concepção dicotômica ato inseguro/condição insegura – em que seu objetivo é o de favorecer os mecanismos de compensação e indenização e não destinado à prevenção. Esta concepção desconsidera a importância dada ao esclarecimento de fatores que dão origem a tais atos e condições.

VIDAL (in FREITAS, 2000) observa que o modelo de base da legislação brasileira, “engendrado a partir da inspiração da legislação norte-americana, se deu sob o signo da proteção, palavra que veicula um significante de afeto, de atitude paternal e mais fortemente maternal, mas que tem como conotação ideológica a impossibilidade de agir na técnica em si mesma. Na verdade proteger significa etimologicamente isolar do mal; portanto proteger o trabalhador significa resguardá-lo do mal veiculado pelo processo técnico. Ora, trata-se de um equívoco, pois podemos pensar legitimamente em processo limpo e seguro”.

Ou como apresenta FREITAS (2000): “a abordagem das agências governamentais tende a realizar uma fiscalização restrita e estática, pautada em normas técnicas específicas de máquinas e equipamentos, bem como nos procedimentos, o que é freqüentemente incompleto”.

Observa-se que, segundo este ponto de vista, não se procura obter uma memória acidentária, condição necessária para se poder fazer uma real análise da situação de segurança vivida, visando abordagens prevencionistas, mas sim manter o nível de isolamento dos riscos, numa atitude estéril e reativista.

“PARACELSO (1493-1541) considerava que os acidentes escapavam a qualquer causalidade e que deviam sua existência aos caprichos dos demônios subterrâneos e que tais explicações fatalistas se originariam na própria história da humanidade, estando ancoradas firmemente nas representações populares, onde o acidente, a morte e qualquer outra forma de sofrimento são considerados como um preço a pagar pela violação da ordem estabelecida (KOUABENAM, p53). Aliada à idéia da fatalidade, aparece a de causalidade pessoal, uma vez que o azar é pessoal.” (BAUMECKER, 2000)

Como apresenta PERROW (1984) ao dizer que não está convencido de que os esforços de governos e indústrias em se regular a possibilidade dos riscos seja uma atitude eficiente na redução destes riscos. De forma que PERROW (op. cit.) acredita que os riscos são inerentes do processo e que não se deve tratar de eliminá-los, já que seria impossível, mas tratá-los de forma aberta e exposta, para se poder conviver com eles sem a ocorrência dos acidentes.

Este autor propõe que com o avanço da tecnologia, criamos sistemas e organizações mais complexas, isto fez com que os riscos para operadores e comunidade em geral, aumentassem. Estas seriam as “más notícias”.

As “boas notícias” seriam que, se conseguirmos entender a natureza dos riscos, poderemos ser capazes de reduzir ou até mesmo remover estes perigos.

Ou como em VIDAL (2000): “A complexidade dos sistemas atuais não é em si novidade. Novidade, sim é admitirmos que, tal como outros aspectos da vida produtiva – restruturação, novas formas de contratação, incrementos da automação, integração de controles e de ações mitigadoras, apenas para citar alguns dos mais importantes – devemos atentar para outras formas de agir na prevenção de acidentes e que respeitem esta mesma complexidade.”

FREITAS (2000) apresenta a AIPA (Análise Interdisciplinar e Participativa dos Acidentes) como uma metodologia no sentido de trazer um conhecimento de condicionantes mais globais dos acidentes. Para eles “a noção fundamental de prevenção pressupõe um entendimento sobre as origens e as causas que podem levar a um acidente. Neste sentido, os acidentes devem ser analisados como o resultado de um amplo processo de interações sucessivas que ocorreriam desde o momento da concepção industrial.”

Neste sentido, DUARTE (1994) observa que “REASON (1990) considera a contribuição humana dos acidentes distinguindo as falhas ativas e falhas latentes em função do efeito desfavorável imediato ou não sobre o sistema. A principal característica dessas últimas é que elas estão presentes no interior dos sistemas muito tempo antes de um acidente se declarar, sendo introduzidas por níveis hierárquicos superiores como os projetistas, os responsáveis pela manutenção e pela gestão do pessoal.”

REASON (1999) apresenta o método TRIPOD como meio de investigação dos fatores causais dos acidentes. Segundo o autor, um acidente só ocorre se houver uma sucessão de eventos, que alinhados vão dar margem para que o sistema se fragilize diante de um cenário propício ao acidente.

Mas, como coloca LLORY (1999), “a análise dos acidentes é insuficiente por si só, e temos de tentar ampliar suas dimensões em geral pouco desenvolvidas: os fatores humanos e o trabalho, ao trabalho cotidiano dos operadores responsáveis pelos sistemas, sujeitos a riscos muito anteriores aos acidentes.”

E é caminhando neste sentido que se apresenta a Análise Ergonômica do Trabalho (AET). Através da AET espera-se obter uma imagem mais próxima possível da realidade do trabalho, e dos seus determinantes por meio do olhar detalhado da atividade do trabalho e de seus comportamentos. Aqui se observa a necessidade de se encarar a real atividade de trabalho realizada, sem os atalhos da simplificação, para se superar a noção de proteção dos acidentes baseada na noção dicotômica de ato inseguro e condição insegura.

A AET consiste num estudo centrado na atividade do trabalhador para se entender os problemas e propor soluções. Valoriza-se aqui a análise da atividade real dos homens em situação de trabalho de forma a modelar esta atividade do trabalho através da integração da observação do comportamento e o entendimento das condutas das pessoas em situação real de trabalho. Assim, sua forma de atuar está na observação no local da atividade do trabalho, e de interações diretas com os diferentes níveis hierárquicos, para a compreensão detalhada desta atividade de trabalho e seus determinantes. Buscaremos então, obter a imagem operatória, como explorada em WISNER (1987), das atividades em questão. Cabe salientar que a AET está preocupada com a confrontação entre tarefa prescrita e trabalho real. Com esta abordagem, obtém-se uma maior proximidade com as perturbações encontradas no desenvolvimento do trabalho e com as formas de atuação para minimizá-las.

V – A METODOLOGIA UTILIZADA

A Análise Ergonômica do Trabalho consiste num estudo centrado na atividade do trabalhador para se entender os problemas e propor soluções. Valoriza-se aqui a análise da atividade real dos homens em situação de trabalho de forma a modelar esta atividade do trabalho através da integração da observação do comportamento e o entendimento das condutas das pessoas em situação real de trabalho. Assim, sua forma de atuar está na observação “in loco” da atividade do trabalho, e de interações diretas com os diferentes níveis hierárquicos, para a compreensão detalhada desta atividade de trabalho e seus determinantes. Busca-se obter a imagem operatória, como explorada em WISNER(1987), das atividades em questão. Cabe salientar que a AET está preocupada com a confrontação entre tarefa prescrita e trabalho real. Com esta abordagem, obtém-se uma maior proximidade com as perturbações encontradas no desenvolvimento do trabalho e com as formas de atuação para minimizá-las.

As etapas básicas referentes a aplicação da análise ergonômica do trabalho consiste na análise do quadro técnico, econômico, social e político da empresa; na análise da demanda; e na análise ergonômica do problema LAVILLE (1977).

Procuramos, durante as visitas à empresa, uma proximidade com os operadores de forma a conquistar sua cumplicidade na pesquisa que desenvolvemos.

De forma geral, as atividades empreendidas foram:

— Entrevistas formais e informais com vários atores relacionados a atividade de trabalho analisada, realizadas com o objetivo de compreender melhor o setor e suas interfaces.

— Observações gerais, feitas a partir do acompanhamento dos operadores durante a sua jornada de trabalho.

— Aplicação de questionários com todos os operadores envolvidos com a fabricação dos óleos. O questionário desenvolvido pelos pesquisadores foi preenchido em conjunto com os operadores. Este questionário versou sobre formação, saúde, meio ambiente e satisfação no trabalho.

— Observações sistemáticas acompanhadas de registro fotográfico das atividades exercidas no salão. Local escolhido como piloto para a análise do trabalho.

— Verbalizações, como forma de enriquecimento e validação de nossa representação da realidade vivida.

Foram também obtidas junto às supervisões, dados referentes à produção, dados de absenteísmo, dados de saúde ocupacional que complementam a análise realizada.

VI – O ESTUDO DE CASO

Este trabalho surgiu de um acordo entre o setor de HSE (Health, Safety and Environment) de uma empresa que produz óleos lubrificantes , e o grupo de pesquisa Ergonomia e Projetos, da Engenharia de Produção da Coppe/UFRJ. O Supervisor de Segurança da empresa, que fez a negociação entre a empresa e a universidade, mostrou-se interessado com a pesquisa pois o setor de HSE está preocupado com possíveis danos a saúde dos trabalhadores decorrentes do levantamento de cargas realizado no setor. Portanto, a demanda inicial do setor de HSE foi para a realização de uma análise ergonômica do trabalho que pudesse quantificar o levantamento de cargas realizado no setor e seus possíveis malefícios, propondo uma solução para a redução dos mesmos.

A pesquisa abrangeu o setor de fabricação de óleos. Neste setor os funcionários se dividem entre as áreas de fabricação, manifold e carregamento de carros-tanque. Existe um rodízio mensal entre estes funcionários de forma a se obter multifuncionalidade (multiskill). Existe uma grande interdependência entre as diferentes áreas de operações e os operadores trabalham com certa autonomia, sob uma estreita ajuda mútua e realizam várias e diferentes tarefas (multitask).

O setor possui 22 funcionários efetivados na companhia, sendo um supervisor e 21 operadores. Existem dois turnos principais no setor: manhã-tarde e tarde-noite. Três funcionários fazem o trabalho administrativo (2 no primeiro turno e 1 no segundo).Em geral, os funcionários trabalham em turno fixo, ou seja, sem rodízio de horário. O setor só trabalha sábados e domingos quando é necessário fazer “hora-extra”. Entre os motivos para as horas-extra estão: contagem de produtos, descarga de navio-tanque e ajuda no setor de envase.

Rotina de Trabalho dos Funcionários
— Aspectos Gerais
Dois dos funcionários são responsáveis por chegar todos os dias às 6:00 horas e fazer a medição volumétrica de todos os tanques do setor.

No início da pesquisa, a equipe se reunia às 8:00 horas para realizar ginástica matinal. Esta ginástica durava 10 minutos. A prática foi abandonada depois que a supervisão propôs a mudança de horário.

A equipe se reúne no início dos turnos para o Diálogo Diário de Segurança (DDS), que dura cerca de 15 a 30 minutos. O DDS é um momento que a equipe possui para conversar sobre problemas de segurança e saúde. As vezes, são também abordados outros temas relacionados ao bom andamento do trabalho.

Em cada posto de trabalho existem diferentes atividades realizadas durante a jornada. De maneira geral estas atividades são desempenhadas com intenso dinamismo e cooperação entre a equipe. Muitas modificações nos processos foram realizadas pelos próprios colaboradores. Agora, será apresentada uma descrição sumária destas atividades.

O Trabalho no salão:

Os operadores do salão (ou pátio) atuam diretamente com a fabricação de óleos. Existem operadores que cumprem um rodízio mensal nos postos de trabalho da fábrica de óleos (mistura), atuando, assim, em diferentes funções e locais de trabalho.

Foi percebido através das respostas dos questionários de saúde e da análise dos dados de saúde ocupacional que o problema lombar é um importante ítem a ser analisado e que tem sido o atual foco de nossas atividades.

Analisando a atividade dos operadores do pátio, podemos constatar que ela é regulada em dois níveis: no nível individual e no nível coletivo.

Ao operador cabe realizar certos tipos de escolhas, como a escolha do óleo a fabricar, ou as “maneiras” de realizar certos procedimentos. Seria então, esta, a regulação individual a que nos referimos.

Mas essa liberdade de “escolha” do operador está subordinada a certas regulações coletivas que dizem respeito a uma certa familiaridade do savoir-faire empreendido na fabricação, que é o caso de um operador mais experiente ser “designado” a fabricar um óleo mais complicado; ou ainda a um certo contexto do dia-a-dia vivido na fábrica, por exemplos o caso de que um operador com problemas na coluna não manipular tambores, ou o caso de problemas técnicos obrigar os operadores a contornar estas situações utilizando-se de meios que os sobrecarregam.

O ritmo de trabalho e sua carga são, de certa maneira, impostos pelo número de óleos a fabricar; pelos tipos de óleos a fabricar e de suas respectivas quantidades; e ainda pelos estado de funcionamento do sistema (organizacional e técnico). Percebe-se também que existe variabilidade das ações empregadas no dia-a-dia o que torna difícil a sua decomposição em partes constitutivas.

Nossas observações:

Podemos dividir duas situações características:

– Esforço excessivo;

– Postura incômoda.

Muitas vezes estas situações se interagem deixando o quadro mais crítico.

O problema dos esforços excessivos estão associados
principalmente à manipulação de tambores.

A questão das posturas incômodas estão associadas à manipulação de tambores e às operações em válvulas e equipamentos.

De forma que podemos sugerir dois encaminhamentos para a melhoria da situação atual no tocante a minimização dos problemas lombares:

– Aprimoramento da transferência de óleos e aditivos em tambores para os pré-misturas. Analisando as possibilidades de um manipulador de tambores ou uma bomba de sucção, e a utilização de TB1000 (tambores de 1000 litros);

– Melhorias/mudanças nos equipamentos para se adaptarem de maneira mais ergonômica ao processo.

O desdobramento:

Visando a facilitar e detalhar a solução para utilização de TB1000 na fabricação, descobrimos que já havia um projeto em andamento para a utilização desta solução. No caso o interesse era de redução de custos com embalagens, e a maior precisão e qualidade na fabricação. De forma que nossa equipe está se empenhando em assessorar esta equipe para que a solução implantada possa trazer ganhos para a empresa e para os operadores.

VII – CONCLUSÕES

Pode-se constatar que um ganho ergonômico nos processos produtivos, não implica em perdas de produtividade ou qualidade.
Pelo desdobramento que deu nossa intervenção ergonômica, podemos afirmar que a priorização do aspecto da produção na empresa estudada se traduz numa falta de perspectiva na melhoria das condições de trabalho, porque não é um objetivo dos atores responsáveis pela produção.

Quando da implementação do projeto de TB-1000, os trabalhadores não foram ouvidos, fazendo nos perceber que as alterações vem de cima para baixo (top-down), de forma que não existe um envolvimento dos trabalhadores, o que leva a um distanciamento e um desinteresse destes atores, contribuindo assim para sua alienação e falta de identificação com o trabalho realizado.

Por fim, percebe-se que a existência de uma hierarquia rígida, preocupada apenas com produção, deve ser trabalhada no sentido de se criar mecanismos que possam considerar relevante os aspectos de satisfação no trabalhador e assim criar compromissos com a saúde no trabalho.

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